Saturday, January 27, 2007
em obras
Sunday, November 05, 2006
visto de entrada e saída
alberto dines, no observatório da imprensa.
há muitas maneiras de envelhecer. e de fingir.
alberto dines, parece ter escolhido a pior delas: a ranzinzinice que se finge percuciente e observadora dos costumes, mas que é apenas baba nas barbas de uma clarividência pretensamente apoiada na sabedoria dos longevos.
o mesmo comentário, se aplicado a ele - um senhor velhote, já agora, a fingir-se, por tal texto, de jornalista onisciente e onipresente, por certo aplicar-se-ia melhor a quem por ranço, bateu um guide-line fora do beat. e que por isso mesmo, demonstrou não levar o menor jeito para fingir-se seja lá do que for, até de morto, se for o caso.
dines, parece julgar-se, não é a pedra de toque do jornalismo faz tempo. e nisso ele afina-se com os rolling stones.
a diferença, é que os stones, ao contrário do alberto, não se levam a sério há muito tempo, se é que se levaram algum dia.
pelo menos nisso ele deveria seguir-lhes o exemplo. isso poderia dar-lhe alguma sobrevida e mais pegada quando escorregasse no limo criado em torno de sí.
(comentário enviado ao próprio).
(originalmente publicado no cemgrauscelsius.blogspot.com e aqui publicado excepcionalmente)
Labels: dines, observatório de imprensa, rolling stones, U2
Friday, November 03, 2006
loucura & política
não há porque insistir na reiteração de duvidas: a diagnose quer assassinar a gnose. no brasil, onde pelo menos 10 por cento(aproximadamente 12 milhões de habitantes) é aguilhoada com o estigma de ser desajustado mental, não é só a psiquiatria, mas o confabulário ideológico-político-científico-médico que tem de ser posto em questão. até quando insistiremos na mais insana das políticas, que é ignorar as vozes da loucura ?
a história da loucura na idade clássica de foucault, tornou publicamente incontestável que, através do nascimento da clínica, a fabricação do estigma da loucura secularizou de maneira “civilizada” possibilidades concretas de interdição. a produção da loucura e sua antítese, a normalidade burguêsa, passou a ser a verdadeira função política da medicina nesse campo. o indivíduo era(é) interditado, conforme a necessidade de controle social, cada vez mais sacralizado na mão dos açougueiros do comportamento, modalidade sofisticada do exercício hipocrático da máfia de branco. deste modo consumou-se a perpetuação da condição dos passageiros da narrens chif. hoje errantes, em terra, soltos(?) em enganoso espaço bem mais circunscrito que as grades do hospital psiquiátrico, reproduzindo-se na inutilidade social gerada pelo regime político que subvenciona o manuseio combinado do bisturi ao arsenal químico.
os loucos não são simplesmente lunáticos, ou como se os representam estereotipadamente, misto de assassinos visionários com idiotas epiléticos. todos os homens loucos são dissidentes políticos. a afirmação cooperiana foi desde cedo apreendida, infelizmente, pelos governantes. toda loucura é delusão política, adverte cooper nos escritos de linguagem da loucura. não são poucos os autores que tornaram esta verdade óbvia, evidentemente em círculos restritos. o surgimento da idéia da antipsiquiatria como entendimento político-socializante da linguagem da loucura, é o comportamento “insano “ à “lucidez” da descoberta do fascista português, egas moniz, que recebeu o prêmio nobel pela invenção da lobotomia, em 1931, e que foi assassinado por uma de suas vítimas – única lobotomia bem feita segundo cooper.
a profissão de relojoeiro de ideologias não é fácil. cooper, laing, castel, basaglia, são execrados a toda hora pelos adeptos do value free, a mitificação da ciência como inocente cordão panacéico. para quem é leitor de, e não about, são bastantes significativas as palavras de lênin, em as três partes constitutivas do marxismo, de 1913: “ a doutrina de marx suscita no mundo civilizado a maior hostilidade e ódio de toda ciência burguêsa(tanto oficial, quanto liberal) que vê no marxismo qualquer coisa como “ uma seita de malfeitores”. não se podia esperar outra atitude , pois numa sociedade fundada na lua de classes, não será possível haver ciência social “imparcial”. toda ciência oficial e liberal defende a escravatura de um modo ou de outro, enquanto que o marxismo declarou guerra implacável a esta escravatura. pedir uma ciência imparcial numa sociedade fundada sobre a escravatura assalariada é uma imagem tão pueril como pedir aos fabricantes para serem imparciais na questão de saber se convém ou diminuir os lucros do capital para aumentar o salário dos “operários”. para que estas questões” teóricas” não fiquem no vácuo que suscita a vermelhidão espumante, apliquê-mo-la de imediato ao quadro da indústria automobilística; à confirmação da preocupações, que também não são à toa, acerca das possibilidades do columbia(ônibus espacial)seja um protótipo de lança mísseis de alcançe total. em se tratando das psicociências, sabemos que a maioria dos teses são classistas,sexistas,etc., para não se falar do significado real dos neurolépticos.
antes que vozes demagogo-democráticas urrem, proclamando nossa parcialidade pró-moscou(como se tudo que é “do contra” viesse de lá), acrescentariamos que, em matéria de técnicas de lavagem cerebral, EUA &URSS, abusaram e abusaram-nos no curso da história, cabendo contudo aos países capitalistas a dose maior de hipocrisia, negaceando a questão de sua aplicação, atribuindo a seus inimigos seu uso constante. seria oportuno relembrar que só recentemente o governo inglês eliminou as técnicas de privação sensorial, conservando-as, entretanto, para auto-aplicação em seus agentes. e nada melhor para encerrar o parágrafo do que reticências meditativas sobre como o cone sul, onde os governos de uruguai,chile,argentina, etc,absorveram radicalmente tais técnicas. vem a calhar esta semana(15/06/81) a estréia(sete anos após, “ a conta de mentiroso”)de estado de sítio, de costas gravas(diretor de Z), película com referências explícitas, por isso mesmo amputada em uma metro e meio(algumas legendas, e a cena de tortura sob os pés do auriverde pendão, além da mala com a inscrição made in brazil).
voltando a loucura, o conceito de normalidade impõe necessidades em vez de as reconhecer. a loucura é uma propriedade social que nos foi roubada, tal como a realidade de nossos sonhos e de nossas mortes(alguém se lembra da história da morte no ocidente, de philippe ariês?). temos de as recuperar, de modo que se tornem criatividade e espontaneidade numa sociedade transformada. para o louco não interessa que o inconsciente seja estruturado como linguagem. é a linguagem que deve ser estruturada com o inconsciente. a loucura é a desestruturação das estruturas alienadoras das existência e o “ sintoma esquisofrênico” de idéias semeadas em nossa mente consitui uma autêntica compreensão desta alienação. “ a loucura existe como uma delusão que consiste em realmente enunciar uma verdade indizível numa situação infalável(cooper)”. a luta da antipsiquiatria é a defesa para que o comportamento profundamente pertubador, incompreensível “ e louco” seja incorporado na sociedade global e nela disseminado como uma fonte subversiva de criatividade, de espontaneidade, de não doença. a não existência da esquizofrenia refere-se simplesmente ao não estabelecimento concreto de uma entidade nosológica no sentido comum: coleção mais ou menos classificada de signos, objetivos e sintomas. decerto, isso não significa uma argumentação a favor de uma etiologia social ou socio-psicológica de esquizofrenia enquanto oposta a uma orgânica ou como parte de uma complexa etiologia envolvendo todos os fatores em grau variável. o que é preciso, é respeitar a loucura como um modo diferente de ser e conhecer, sem hipostasiála, o que é verificável quando da abordagem da idéia que se tem sobre o processo criativo dos artistas, que da loucura necessitam para a sua poiésis, se a assim a querem lívre e contínua.
não queremos ser como nietzsche, que enlouqueceu em busca de um punhado de pessoas a quem pudesse falar e que assumissem pensar um pouco como ele. o elogio da loucura é a antítese às “ operações limpas “ que nos transformam em anômalos, cyborgs, o que de certo não agrada aos defensores do sistema produtivo que só nos defende enquanto correias de transmissão “ não esgarçadas “.
o problema da humanidade, é que ela é humana demais. pessoalmente, sinto-me como o “ esquizofrênico” de price, que declarou: ouvi vozes dizerem: ele está consciente da sua vida”.
sem transformação dos parâmetros que conduzem esta sociedade, nunca haverá uma psiquiatria nova, mas sempre opressiva. o único abuso da psiquiatria a ser abolido, é realmente seu proprio uso.
resta-nos pois, a “loucura” de nós todos para impedir a morte do revolucionário que existe em cada um de nós.
texto integralmente publicado no panorama literário do diário de pernambuco, em 10 de julho de 1981, e no suplemente correio das artes, de a união, em 16 de agõsto do mesmo ano.
Labels: cooer, diagnose, egas moniz, focault, gnose, nietsche
Wednesday, October 25, 2006
a inversão do genocídio no dever de casa
após o final da guerra(1865/1870) mais de cem anos de mentira e nebulosidades sobre o quase extermínio de uma nação contínua - através da proibição não apenas formal a pesquisas mais instigantes ao acervo da guerra do paraguai, capturado principalmente em cerro corá e assunción - desta vez sob as patas da cavalaria econômica/cultural dos vencedores que inicia seus primeiros exercícios de campo nas articulações vitais do dever de casa(a capa de sílvio dworecki é a alusão perfeita ao fato), investindo-se sob a ação de canetas pontiagudas, num nacionalismo xenófobo que a pequenos traços deforma, e formula a caminho da irreversibilidade, a alimentação do orgulho hipócrita de adultos extasiantes com cenas falseadas de episódios históricos e militaristas. conservado no formol do ufanismo deturpado, francisco solano lopez continua sendo apresentado(e a história oficial não abrirá mão, afinal esta guerra determina a patronalidade de duas armas) como sátrapa, sanguinario, comedor de criancinhas no café da manhã, aliás como são representados todos que surjam como re-visão do mundo e assim contrariem o dissoluto absolutismo cultural e a ditatorial/idade política do momento dos vencedores.
a matança tem prosseguido e continua às avessas, apresentando os paraguaios como bárbaros índios, ignorantes( os de ontem e os de hoje) uma vez que o leitor não tem acesso(e não faz por donde tamanha a cataquese e orgulho medroso ante a verdade) a uma historiografia crítica e sim oriunda de um império que sedimentou conceitos básicos e e opiniões, em troca de favores outros para encobrir as verdadeiras razões e extensões do genocídio.
de teixeira mendes, ao coronel bernardino bormann, jesuíno lopes & cia. editores, curitiba, 1897, as anotações corajosas do coronel cunha matos sobre a história da guerra do paraguai de max von versen(livraria editora Itatiaia ltda. belo horizonte, 1976, a probição do “ solano lopez, o napoleão do prata, de manlio cancogni e ivan bóris, civilização brasileira, que foi vetado em 1975, autores têm sido relegados ao esquecimento por sua criticidade histórica o que mostra o combate a toda e qualquer tentativa de revisão histórica que signifique atentado a versão oficial dos vencedores. o turismo da historiografia oficial utiliza o álibi do perfeccionismo para uma análise que não seja a formal. a postulação crítica dos fatos tem sido substituida por números: condições climáticas, horários, quantidade de canhões, comandantes a frente, etc. os relatos de testemunho pessoal são utilizados por historiadores para fazer o apanágio que encubra uma realidade desprimorosa para a política imperial da época e também para o hoje, pois quem se arrisca a “ cometer um crime contra a nacionalidade “. caxias e tamandaré (patronos do exército e marinha, respectivamente) numa posição bem diferente da que fomos acostumados a decorar?
o problema não é exigir a cabeça de quem quer que seja, mas, a criticidade quanto ao erigir bustos de duvidosos heroísmos e a humana consciência de que, sendo homens, e numa condição de guerra, algumas ações acabariam mesmo por acontecer. e chega de estoicismo baratos.
também não se trata de inquisitoriar ao avesso uma interpretação formal de historiadores alienados que testemunharam a guerra, ou a escreveram através do relato apaixonado de homens que viveram as batalhas como por exemplo a historiografia de taunay e joaquim nabuco. o problema é a estagnação cultural e a repressão cultural(mesmo em tempos de abertura) que dificulta a revisão histórica que, uma vez não efetuada, ocasiona os desastres que são os livros, principalmente de primeiro e segundo graus, que: ou vem com vagalhões de dias heroicos(“ como se a história fosse feita para se comemorar datas”, em festas sazonáveis) ou, com o anedotário cabraleônico. tudo isso, com o agravante de ser alimentação única e restrita de jovens, num país jovem, de população predominantemente jovem. isto faz pensar seriamente no futuro, já, aqui e agora.
os adultos, estes foram tão bem catequizados que, muito embora pela aferição primária da comparação geo-política e territorial que gera um zum-zum-zum, afinal o descomunal poderio de brasil, argentina e uruguai de contrapeso, faz qualquer um pensar quando o “terrível” inimgo descobre-se é o pequeno paraguai que despertou outros interesses, daqueles que temerosos por“razões outras” estancam e não fazem por donde. “yo el supremo” de augusto roa bastos, sobre o ditador franca (epifenômeno que iria modificar o panorama do paraguai e chegar a ameaçar os interesses ao tempo de solano lopez) foi traduzido para o brasil pela editora paz & terra. mas um ou outro outro furo(exceto o rombo de chiavenatto) não são suficientes para a introdução à compreensão totalizante dos acontecimentos. livros tais como “processo a los falsificadores de la história del paraguay “, atillo garcia mellid, ediciones theoria, buenos aires(1963) ou “ la guerra del paraguay: gran negócio”, leon polmer, ediciones caldén, buenos aires(1968) por certo aprimorariam a visão sobre o assunto se aqui chegassem senão além das citações bibliográficas ou na maleta(finalmente livre?) de algum viandante interessado em alguma coisa a mais “ que las noches cálidas de latino américa “.
júlio josé chiavenatto mandou ver alguns países da américa latina movido – muito menos – pelo combustível da indignação contra as atrocidades cometidas pelos “corações cristãos do brasil “(e atribuidas em sua totalidade aos paraguaios) e, - muito mais – movido pela indignação contra a escamoteação que a quase totalidade da historiografia brasileira fez, e faz, sobre a guerra do paraguai. por isso, a importância do livro, porque é nas rodas da moto rápida deste paulista, que o paraguai inicia o difícil caminho dentro de nossas fronteiras da revisão histórica e nela rasgam-se sem eufemismos as falsas bandeiras da intocável reluz/au/sência dos preceitos históricos de nosso heroísmo chavão.
as resenhas em geral tem-se ocupado de chamativamente destacar fatos como se a intenção fosse um certo revanchismo ou pretensão de atirar lama( tá na moda ?) aos vultos politicos/militares que desfilam nos dezessete capítulos sangrentos e venenosos desta guerra. da contaminação das águas ribeirinhas, por caxias e mitre; da matança dos niños-combatientes a 16 de agosto de 1869 (20.000 soldados brasileiros contra quinhentos soldados e 3.500 crianças de nove a quinze anos) ; do assassinato de 96,50% dos homens paraguaios e 75% do povo; são chamarizes eficazes a uma abordagem sensacionalista do assunto. mas não é esta a intenção do livro. este comportamento equivale as especulações editoreiras em torno do assunto que, por exemplo, transformaram a tese de doutoramento de 1976, intitulada “ moeda e vida urbana na economia brasileira, rui guilherme granziera, edição hucitec/unicamp, em “ a guerra do paraguai e o capitalismo no brasil “, onde os fatos não colam coisa com coisa, e servem apenas de falso chamariz a um livro, inclusive de qualidade, mas de pretensões outras.
muito mais importante e introdutório, além de possibilitar o início de novas abordagens, são os capítulos que circulam em torno do capitalismo do barão de mauá e suas ligações com o capital inglês, papel de mr.washburn; o manuseio das missões diplomaticas, e manuseio dos signatários da tríplice aliança pelos mesmos interesses ingleses; a maçonaria e suas extensões(se bem que a abordagem é apenas noticiosa); a imprensa de guerra( ver o “cabichui” contas as “macaquices”); a composição dos exércitos e a política escravocata de então, etc. enfim, tudo o que prepara a demonstração da verdade que não é nova: o poderio e veneno da
insaciabilidade dos interesses econômicos conduz homens a posições deprimentes.
as críticas maiores a chiavenatto, além da adjetivação de maniqueísta por todo o lado, são quanto as revisões históricas e defesa dos princípios diante do “modus operandi” que o autor teria efetuado ao deixar essas intenções explícitas no livro. parece-me que o afã pelo livro despertou leitura precipitada e julgamentos nos seus ávidos leitores(os favoráveis, os do contra ainda estão se recompondo, evidentemente não tão rápido como sempre o fazem) que mergulharam nos fatos desprovidos de não “ uma bula de contra-indicações”, mas do distanciamento exigido a tais leituras, isso aos críticos, pois os leitores normais ainda estão ainda baqueados entre a incredibilidade e o como é que pode, se saiu ?
para que possamos motocar com chiavenatto, o livro necessita de algum esforço na concatenação de alguns fatos( e não quanto a sua leitura em sí, que pelo contrário, dado a linguagem jornalística, permitem(sem o peso de uma falsa postura histórica que disso precisa para referendar o encobrimento de seus deslizes) uma leitura agradável e excitante.
publicado originalmente no diário de pernambuco, no panorama literário , no domingo 29 de julho de 1979.
nota atualizada: o paraguai na época, era uma nação independentemente econômicamente. uma indústria pioneira, inclusive no setor de armas, com fundições e know-how próprio, sustentava uma população vivendo com qualidade de vida superior a seus vizinhos. a guerra, articulada pela inglaterra, tinha como objetivo acabar com esta mesma independência, procurando esfacelar o estado paraguaio, submetendo-o as regras do capital colonizador inglês.
Labels: capital inglês, caxias, paraguai, solano bastos
Saturday, October 21, 2006
e agora? vamos embrulhar peixe com o quê ?
nos anos oitenta, ainda fazia-se jornal com barulho de máquinas de escrever, tele-tipos e linotipos. as redações tinham movimentos peristálticos de outros estômagos e cérebros ainda vivos a espirrar idéias entre edemas de pulmões pau a pau com cinzeiros abarrotados, arrotos de chambaril, e hálito de “ cachaça da boa “ a impregnar a primeira página.
havia sangue nas páginas policiais, como sempre, mas a violência era quase light se comparada com a de hoje. socialites a dar chiliques juntamente com travestis em plena redação olhados de soslaios por políticos importantes que os anotavam em suas agendas complementavam o quadro aqui e ali salpicados por alguma troupe a procura de divulgação.
desse tempo jaz a última lembrança da entrada na bateria da escola de samba da redação do jornal do brasil pelas mãos do noênio spínola, acabado de chegar do seu posto de correspondente em moscou para assumir a editoria de economia, cabendo a mim a sub.
mas havia um problema, eu teria de cortar o cabelo. já que passaria a conviver com a inimidade de um poder cabeludo que começava a despertar atenção e a aumentar o número de páginas do caderno já não mais econômico em conteúdo.
preferi continuar de cabelo em pé. o que provavelmente foi a maior barriga jornalística que fiz. mas o fiz com uma convicção invejável
hoje as redações são limpas como cozinhas do mcdonald´s e os textos tem sabor de comida congelada. se lá estivesse caberia em mim a touca ?
(texto publicado no cemgrauscelsius.blogspot.com em 22 de fevereiro de 2006 e excepcionalmente publicado aqui, já que os textos publicados nos veículos web são publicados no dulcora.blogspot.com)
Labels: jornal do brasil, linotipos, noênio spínola, tele~tipos
Monday, October 16, 2006
razões de uma crítica
o que nos ensina o passado? – historia magistra vitae – que em cada época , a ordem estabelecida pretendeu assegurar por via juridica – quando não podia sentava o sarrafo mesmo ! – a disciplina que tinha por adequada à sua perenidade.
um regime solidamente estabelecido e dotado das normas necessárias a sua manutenção pode consentir numa certa evolução do direito, desde que tenha consciência de ser mera etapa da evolução social e se atribua a função e preparar a etapa ulterior( a “abertura”, por exemplo). ao invés, se ele pretende consagrar os privilégios existentes,consentirá apenas,enquanto subsistir, reformas que as circunstâncias(tecidas pela idéia que os governantes tem da correlação de forças) consigam ditar. as estruturas são protegidas pelo arsenal inalterado das leis fundamentais(examinar as alterações de nossos códigos)onde se vem enxertar normas e regulamentos subsidiaries que permitem ou promovem mesmo pequenas reformas, intervencionistas, fraudulentas, apresentadas como inovações revolucionárias. num ou noutro caso, quer o sistema politico se pretenda eterno, quer se apresente como transição organizada,o direito é concebido como um meio de conservar uma ordem determinada. é um meio de força. esta é uma das boas lições, apesar do “sorelismo” que nos dá george sarott em o materialismo histórico no estudo do direito, editorial estampa, lisboa, 1972.
Mas assim que os ordenamentos e as coações jurídicas deixam de corresponder aos imperativos econômicos-sociais do momento, a contradição provoca a superação do direito formal pelo direito positivo. o direito positivo é aquele que corresponde ao nível real alcançado por uma sociedade no seu desenvolvimento histórico,enquanto o direito vigente é mero aglomerado de coações aribitrárias. esta ótica leva em bom tempo a frisarmos uma corrente que apresenta o estado não como criador do direito mas apenas como seu organizador, em manifesta oposição às posturas germânicas do direito como emanação do por dominante em contradição com outra escola, cujo principal representante é savigny, para quem o direito emana perfeito do seio do povo.
a maioria dos autores modernos aborda a matéria dentro de um quadro premeditadamente formal, chegando a casos extremos de positivismo jurídico, como bem conhecido , e devidamente adotado, hans kelsen, filósofo e jurista, que em sua teoria pura do direito (teoria pura?), saraiva & cia, 1939, são paulo, identifica estado e direito, negando a existência deste fora daquele. isto, motivações ideológicas à bombordo, traz toda uma sorte de perigos, pois enquanto judiciante, o estado possui uma organização destinada a fazer com ele próprio um exercício de dupla personalidade(caso do padre vito miracapillo) tratando-se como parte interessada em determinada situação litigante, mandando o aliquis non debet esse judeux in causa própria, pras cucuias.
no estado moderno, sujeito a toda sorte de contrafações motivadas pelo interesse das forces econômicas, nada melhor para definir sob a égide do direito, o conceito de justiça dominante, do que as palavras de Edelman: “ a consciência do jurista é uma má consciência, a sua moralidade(por exemplo, o caso de “probição” das revistas eróticas) é uma imoralidade(são os maiores consumidores), a sua ordem pública, a ordem da propriedade privada, a sua “alma”, isto é a ilusão de tomar as relações jurídicas por relações humanas, é a alma de um proprietário e de um rentista, seus conceitos a expressão necessária ao capital”. evidentemente a discussão não se encerra aqui. pede bem mais do que o espaço de simples artigo de jornal. por ora, encerremos o tópico com a pergunta: o que esperar de ideólogos hipócritas(estão sempre ao lados dos poderosos, lembrando-me balzac, em la maison nucigem:” as leis são como teias de aranhas através das quais passam as môscas grandes e ficam presas as pequenas”) que consideram o direito absoluto – é a ciência mais abrangente!exclama orgulhosos, do bilírio ao interplanetário – “esquecendo-se” que esta abrangência nada mais é que o corolário da multiplicação dos tentáculos dominantes, operando o mundo dos conceitos(para submeter os parvos)camuflando as contradições que são produto das relações históricas entre os agentes sociais? nada mais oportuno que a resposta de marx, em a ideologia alemã :“ os mesmos ideólogos que puderam imaginar que o direito, a lei, o estado, etc, brotam de um conceito geral, talvez em última instância do conceito de homem, e que se desenvolveram graças a este conceito; estes mesmos ideólogos podem também imaginar, naturalmente,que os crimes se cometem simplesmente para desafiar um conceito, que não são senão uma maneira de enganar-se os conceitos e que só se castiga para reparação dos conceitos violados”.
ernest mandel, em seu les étudiants, les intellectuelles et la lutte de classes, na versão da editora antídoto, lisboa, 1979, foi duramente criticado por suas conclusões após análises da transição da universidade tradicional burguesa para universidade tecnocrática, quanto a interpretação da progressiva proletarização da inteligentizia como característica desta transição. críticas precipitadas, nada mais verdadeiro no caso do famigerado advogado.
na universidade tradicional, a maioria de seus privilegiados frequentadores o fazia por diletantismo, pois em breve assumiriam o controle e a posse das mais diversas propriedades, razão pela qual a ida à universidade não era muito bem vista pelos seus tutores, pois teriam de entender do que eram donos e não lá do que fosse chamado de conhecimento. temos passagens famosas de fugas aos destinos de berço motivados pela ida à universidade, como também de fuga à própria, para os caminhos da arte da aventura. hoje, tendo também suas posses para gerir, na era tecnocrática, a minoria é que e diletante. o diploma, direito, no caso, vai bem com resquícios aristocráticos e ambições de noveau riche. caso, a escolha seja feita por “vocação”, o “sucesso” sera também garantido quer pela posse material, quer pelo status genealógico.
já para o estudante de extratos sem tais privilégios, o direito, vem substituir o padre, aplicando-se as observações de gramsci. os menos favorecidos sonham sempre, direcionados pela visão mítica do conhecimento, em ter um doutor na família – no ínicio querem um médico, engenheiro ou bacharel – que não só elevará o “status” familiar, mas sobretudo facilitar-lhe-á aventuras prováveis num confronto com o poder. o advogado ainda é o homem que abre portas, da cadeia principalmente. por outro lado, o constante esmagamento pela estrutura jurídico-burocrática, totalmente voltada para a proteção dos mais ricos, faz com que o povaréu tenha-lhe o maior descrédito, exclamando em tons forjados por elementos de inveja e raiva apaixonada sua conclusão sobre a falácia do direito, que centraliza na figura do bacharel: — todo advogado é ladrão!. e, como o povo é sábio, ao intuitivamente concluir que 230 comarcas sem juiz em pernambuco, um só juiz para a vara de família de joão pessoa(e acumulando cargos) 20 anos para acertar o passo da justiça, só no acumulo de processos já endereçados, nova Iguaçu,rio de Janeiro, são disfunções premeditadas para inibir partes prejudicadas( o povão obviamente), já que o estado está se lixando para quem – sem posses – certamente vai enlouquecer ou morrer no período.
nesta corrente é formado um bom contigente de advogados, entre outras tantas profissões uma das que mais tem se prostituido, que pela “luxúria”, quer pela pobreza de suas relações com o estado. o “idealismo” com informação – coisa só permitida para quem tem condições de pagar livros, aperfeiçoar cursos, e demais “amenidades”, sem falar do impossível para muitos, escritório – levará a uma prática fraudulenta com conhecimento de causa, sucesso certo para aqueles que pretendem faturar e que só investem no direito com a certeza de seus privilégios — fazer direito é morrer de fome, este é o slogan – numa época em que as carreiras são esolhidas baseadas no retorno em dinheiro e poder, e não na escolha lúcida daquela que permite a plena irradiação das potencialidades do indivíduo. Já, idealismo sem informação – como pode conseguí-lo o estudande que vai de passes para a unversidade ? – e um desastre que se transformará em desgraça. advogados como auxiliaries de escritório, descendo a sarjeta na prática da deduragem através do aproveitamento para os quadros da repressão.
todavia, se após arranjadas suas preocupações maiores – o anel pra dormir sem tirar do dedo, e o diploma para pendurar na parede – o doutor (doutor que os verdadeiros doutores, physical doctor ou doutorado, procuram eliminar dos prenomes) sai código a mão, quixote, pronto a salvaguardar injustiças contra a “sua gente”, e ferido pelo despreparo crítico a realidade, renega suas origens, aceita as regras do jogo, e passa a vitimar os seus. é a lei da selva. é claro que estas questões nunca lhe passaram, até mesmo nas leituras de empréstimo nos catatais que silenciam sobre o tema, pois a admiração pela geometria horizontal de dezenas de tomos como em pontes de Miranda, e outros tantos, “metros do saber”, capa-lhe a dimensão crítica da sociedade. são questões simples, porque básicas, e como desde a sua formação vai sendo dessocializado para questões “minúsculas”, “evaporam-se” as contradições. aliás, não é à toa que advogado tem mania de livros grossos. é típico do discurso burguês,quer escrito,quer falado, que para escamotear seus falseamentos, carrega nos adjeitvos, eufemiza os verbos regulares, exarceba os advérbios e multiplica as citações estéreis. a tonitroância, a discursorréia é a palavra de quem não tem nenhuma verdade a dizer. a verdade não necessita de cacoetes ribombantes. de certo que há direito que não serve mecanicamente aos interesses da classe dominante, mas é sempre expressão da ideologia dominante. oriundo de práticas liberais com bases conservadoras, o discurso juridico é sempre liberal, mas hegemônicamente autoritário.
o surgimento de uma publicação crítica de há muito se fazia urgente. eis que surge crítica do direito, de extrema felicidade, quer pelo rigor crítico, quer por sua acessibilidade. críticas elas têm existido. catatais enormes de rococos funcionalistas. por outro lado, livros como a justiã a serviço do crime, arruda campos,horizonte editora, quarta edição, 1979, plasmados de formação ortodoxa, horizontes teóricos ensacados, só serverm para, ao atacar o sistema dominante, reforçá-lo.
a “cidadela do direito” que outrora esteve dominada pelo “jusnaturalismo” e que presentemente encontra-se sob ocupação do positivismo jurídico, ganha entre nós, finalmente, um novo pretendente: o marxismo. doses homeopáticas anteriormente já haviam sido aplicadas com direito,justiça e ideologia, de f.a. de miranda rosa, da achiamé-socii, ou crime, o social pela culatra, de dilson mota e michel misse,pela mesma editora. a ofensiva marxista aqui representada, penetrou no “ espaço jurídico” com maior rigor através do seu ele mais débil, isto é o direito do trabalho, através de tarso fernando genro com introdução critica ao direito do trabalho, L&PM, 1980, e direito do trabalho e modo de produção capitalista de carlos simões, símbolo, 1980.
contudo, a crítica do direito, através do lume da “ arma da crítica como crítica das armas”, agora é que vem golpear contudente o coração da ideologia burguesa: sua concepção juridica do mundo. através de artigos de engels(socialismo de juristas), andre jean arnaud(ser jurista e contestador),nicos poulantzas(a lei),marilena de souza chaui(direito natural e direito civil em hobbes e spinoza),josé arthur gianotti(sobre direito e marxismo), tragando uma linha pluralista, que não temos dúvida marcará sua posição filosófica, crítica do direito impôe-se principalmente num contexto em que o conceito jurídico de direito, que é absorvido pelo conceito sociológico, abstraido de toda espécie de crítica, equivale a prática sociológica do funcionalismo, isto é, uma prática ascética, um direito de anjos sem asas, numa versão sociológica do dualismo platônico entre corpo e alma na expressão de gouldner. está é uma crítica do direito efetiva porque passa efetivamente à crítica das figuras da realidade capitalista que lhes dá origem. por isso ela é hoje muito mais uma tarefa teórica e prática do que ciência feita e realidade efetivada como a observam, criticamente, seus autores.
solidariamente, resta-me lembrar:” a exigência de renunciar às ilusões sobre o seu estado é a exigência de renunciar a um estado que tem necessidade de ilusões: a crítica desfolhou as flores imaginariás que cobriam a corrente, não para que o homem carregue a cadeia prosaica e desoladora, mas para que ele rejeite a corrente e colha a flor viva”. karl marx, crítica da filosofia do direito de hegel, 1843,44.
que assim o seja.
publicado integralmente em 14 de novembro de 1980, nas finadas páginas do caderno literário do diário de pernambuco.
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Thursday, October 05, 2006
dançar pra não dançar
há quem diga que a dança sempre ocupou uma posição ambígua entra as artes. dependendo do movimento do corpo, parecia possuir a qualidade puramente espiritual da música. conquanto pudesse contar uma história , não podia competir com as complexidades morais e as nuances intelectuais do romance, do poema ou da peça teatral. embora também envolvesse formas e figuras, seria uma arte evanescente, em comparação com a permanência e a capacidade de repetida contemplação da pintura.
entretanto, temos de reconhecer, que só mesmo o teatro e a música chegariam tão perto da dança num processo de manifestação ininterrupta durante as 24 horas do dia. o ator social, e o dançarino social, se equivalem e se acompanham do nascimento a morte. este aspecto faz da dança principalmente um elemento central de qualquer cultura de todas as épocas. situada como impulso nos ritmos da natureza e do corpo humano sem “ intenções intelectuais”, ou nos ritos comunitários e religiosos, nos tempos modernos, traduziriam os estilos de dança em rápida mudança, reflexos espirituais de bem mais amplos estados de espírito culturais.
contudo a sedução da dança pelo prazer da virtuosidade, pela atração sensual da força, graça e habilidade ou, ainda, obedecendo a impulsos sociais como namoro e jovialidade, não trazem em sí só o “movimento pelo movimento”. as harmonias ou desarmonias de composições traduzem “ o gosto social preferido” que uma técnica – muitas vezes pseudo-técnica – se encarrega de eliminar oposições no espaço da dança à verticalidade das relações dentro das quais vivemos. ou, muitas vezes, utilizando de eufemismos, coreografa este movimento, marcando o gesto com um todo, que passa a refletir e valorar uma estética – estética que traz em sí valores em cooptação com a ordem econômico-social-política vigente, principalmente quando, originando-se da restrita vida da corte da nobreza européia, o balé – cujo processo de eruditização nada mais foi que um elemento de diferenciação social – tornou-se o primeiro estilo de dança a alcançar reconhecimento entre “ os povos” como forma de arte internacional.
no nordeste, onde para klaus vianna* estaria o germe da possibilidade da criação de uma dança brasileira – de uma técnica brasileira, que proporcionasse uma dança sociológica, como por exemplo, sua tentativa desenvolvida com egsberto gismonti de apreender o ritmo e o movimento carioca – na restrita vida das províncias, a dança é cultivada através de academia que inculcam desde a divulgação, a prática da dança, como elemento de distanciamento social – direção antípoda às proposições primeiras da dança – a partir do fato(que não é independente) da existência de uma prévia seleção de ordem econômica e tempo de lazer(interligadas evidentemente), caracterização manifesta e distorcida até mesmo na busca da dança como elemento terapeuta-estético, panacéia principalmente para a fobia do “ corpo gordo” que anda por aí, outra forma de desvirtuação com princípios comuns.
é de se observar que não existe um trabalho preocupado com nossas características atuais de ritmo e movimento, infectados e conduzidos rumo a perda de características próprias, pela colonização sob forma europeizada ou, ainda, indiretamente pela imitação de centros mais avançados dentro do próprio país. os praticantes da dança são fechados em compartimentos estanques espalhados na maioria, oriundos de extratos não-abertos, interessados apenas em manter o padrão elitista – significação direta de um dos tentáculos do aparelho ideológico vigente no estado, que tem na estimulação a cultura-forceps eficiente – padrão elitista esse, que prima pelos “bons-gestos”, fechando-se a criação do dia-a-dia, sem sombra de dúvidas a maior aula de dança(ritmo,música,etc)que qualquer um pode ter.
o processo de seleção não só atua mantendo a distância possíveis “curiosos”, mas também atuando dentro do universo dos próprios praticantes numa catequese disciplinar para a conservação do princípio de qualidade, através do culto distorcido de graça, beleza, da ojeriza ao novo(não ao modernoso) além de estabelecer canônes para uma aproximação das formas populares caindo em obscurantíssimos e, em termos artísticos, com resultados romantizados, com um modelo de distorção bem seguido, confundindo as formas – e conteúdo ? – de manifestações populares que foram e serão sempre(a história está aí) celeiro dos verdadeiros operários da dança, que o adubo do cotidiano se encarrega de tornar plantio mais fecundo e por isso mesmo, perigoso.
sob este aspecto é sempre bom lembrar que a nítida divisão dos tipos de dança foi baseada em classes sociais. a nobreza apropriou-se das manifestações “rudes e vigorosas” dos camponeses, e sob a alegação de que estas manifestações eram grosseiras, vulgares e incovenientes, gradualmente adaptaram as danças camponesas aos seus valores e forma de vida, começando por aplicar as elaboradas regras de etiqueta palaciana e os ideiais de amor cortesão. justamente daí vieram o minueto, a galharda, pavana e volta.
já anteriormente, o aparecimento do cristianismo levou a dissociação entre dança e religião, quando no século XII, a igrja passou a condená-la auscultando aspectos paganísticos, denominação qualquer para justificar a fuga através de uma forma de arte que denunciava pelo movimento, a rigidez de uma ordem imposta imposta pela instituição religiosa que totalitarizava a conduta social de então, trazendo por sob as batinas do clero os mesmos tacões dos déspotas de todas as épocas.
há que se ve então a importãncia do movimento e, por toda a parte, a preocupação constante de adequar a dança, em manifestações cooptadoras com a ordem – e portanto a estética - vigente. também é bastante significativo que, numa rápida olhadela, na linha evolutiva histórica da dança, se constate uma virada com a oposição da técnica a liberdade, quando esta – a técnica – nasceu justamene da necessidade de libertação de princípios e regras muito pouco criativos. na era da técnica, a ténica passou a ser uma castração e uma neurose. es quem controla e tem a técnica ?
a liberdade por sua vez foi necessária para a estruturação da dança como manifestação ritualística e artística, e também para a sua volta à abrangência, pois com a criação do bale cõmico da rainha, a dança perdeu sua característica participativa. a técnica do mundo moderno é própria dos dominantes que irrompem com a mesma como aparato ideológico para lelgitimação do status quo, inclusive distorcendo a concepção histórica da técnica e função, como se as camadas populares não tenham sua própria técnica “primitiva”, mas eficiente, como resistência à “ciência dos sistemas”.
veja-se-se, por exemplo, que nessa tentativa de libertar-se buscando uma técnica – antes da técnica enclausurar cada movimento que rompia com a forma vigente – enquadra-se no ato revolucionário de marie camargo, quando em 1710 eliminou os saltos dos seus sapatos e encurtou as saias, rompendo a atmosfera pesada da sociedade de então; ou ainda, os esvoaçantes trajes e pés descalços de isadore duncan, ou, em termos de massa, o fenômeno do rock. todos estes rompantes têm a ver com a necessidade de romper claustrofóbicos sistemas cuja dureza e inumanidade econômica, política e social, foram imediatamente contestados por formas artísticas, refletidas na liberdade do gesto, numa liberdade que determinou a técnica, que todavia logo os sistemas dominantes cuidam de recriar a sua maneira introjetando vales seus e os recambiando de volta ao mercado**.
afinal, se o movimento é compreendido como expressão das nossas ânsias, dores, raivas, alegrias, erc, e é compreendido muito antes das palavras(tal como entendemos a música da voz muito antes das palavras da voz) não me parece, como querem alguns, tão absurda a significação política da dança, na medida que o movimento encerra tantos significantes. absurdo, isto sim, parece-me a dança pela dança, a “ l´art pour l´art”. como separar o dançarino do dançarino social, numa arte organicamente amarrada entre um e outro? incoerência há em quem estimula sua prática apolítica, politicamente impregnada de valores aculturados e autoritários.
no entanto, cada vez mais vemos que o culto distorcido proposto pela dominância da graça, beleza e técnica, só contribui para um conceito equívoco de dança. geram pastiches de clássicos, cujos dançarinos em nossas academias parecem tudo, menos amantes da dança. ou modernosas e gratuitas justaposições espaciais, com nítida fobia ao novo e aos valores da raça cujos queixumes, preocupações, sonhos e decepções encerram recursos para uma dança inegavelmente maior. nós estamos morrendo por inteiro, desde os mitos indígenas e sua destruição, aos próprios valores de uma classe média brasileira, no mínimo de que ela tem de peculiar à raça.
da flávia barros, passando por mônica japiassú, academias olindenses, balés de fred salim, tony vieira, extintos armoriais – e entenda-se isso às menos famosas e outras dos estados vizinhos, como ceará, rio grande do norte, paraíba, alagoas e sergipe – o fato é que nem de longe, em nenhum momento, chegou-se a vislumbrar uma preocupação com as nossas características, visando uma dança sociológica. por outro lado, o equívoco da aproximação com o acervo cultural da raça de então, leva cada vez mais à destruição sob o rolo compressor do civilizado que não sae o que apreender sem destruir. e cujos efeitos já se fazem sentir no bumba-meu-boi do maranhão e também de pernambuco;idem ao maracatu e ao frevo, que não vão ser a prática numa escola ou num “desperta recife” que eles acordarão a praça. o problema não é simplesmente a busca isolada de um contato verdadeiro com manifestações. mas sim da ingerência da cultura social em tais manifestações e num nível muito maior e o enfeixe à cultura nacional dado pelo governo sob pressões multinacionais que determinam também a consciência cultural da população direta ou indiretamente. as discotecas não são mero acaso. tem uma correlação diretíssima com as empresas do acetato que fornecem o ritmo interessante àqueles que controlam suas ações.
as formas de controle manifestam-se sob diversas formas , inclusive sob o cuidado da proteção da moral, que como qualquer outra forma ideológica, tem caráter de classe. há cerca de um mês, num curso de inverno??? na academia mõmica japiassú, de expressão corporal – cujo professor klaus vianna chama de “dinâmica corporal”, dada a distorção do que seja realmente expressão corporal(basta ver os apelos na imprensa pernambucana e as baboseiras escritas sob o tema)constatou-se um dado terrível e que nos faz pensar. quem mais tem preconceito e medo do próprio corpo são as professoras de dança. o quanto isto é grave, fica ainda mais explícito, se constatar-mos que esse medo motivou o abandono do curso dessas professoras – inclusive da própria academia patrocinadora – que são responsáveis pela formação de corpos e mentes em dança. quando não a maioria das alunas adiantadas que reproduzem(isso já é terrivel educacionalmente em termos de precisão de capacidade de reprodução)os ensinamentos daquela que dá nome à academia, e vão, através do processo de repetição – o menos indicado em dança – delinear o permitido e o não-permitido e o que se deve ou não descobrir de pele ou roupa. os alunos, por sua vez, ficam horas a admirar-se nos espelhos e com preocupações maiores de não repetir a malha ou se a de fulano está ou não está na moda ou não. a fuga da exploração do corpo para quem faz dança é inadimissível em quem se arvora a ensinar, principalmente, e que vai ou deveria formar uma concepção que deve buscar a liberdade desse objeto á tão terrivelmente massascrado pela sociedade: o corpo.
questionado, responde que o “intelectualismo” busca intrometer-se nessa arte” tão pura” e que “arte é arte”, nada tem a ver com política. esta posição é tão perigosamente ridícula quanto certas” mortes de cisne” o contorcionismos integrados.
não sei se seria subestimar inteligências, mas não estou muito certo que, alem das denominações em francês, as mestras de dança em geral poderiam, por exemplo, perceber as implicações das novas tendências da dança norte-americana “ tidas como distintas da dança de qualquer outra parte do mundo” e sua maneira de propagação influencia paralalelamente ao bloqueio do bolshoi e sua liberação com os rasgos e meneios do “ for-fait” de plissetskaia.
evidentemente não vamos querer que nossas mestras sigam o exemplo de uma geração de bailarinos que mais pareça um corpo acadêmico da as qualificações de ph.d e mestrandos em sociologia e antropologia e psicologia social – sem por isso perder o vigor artístico -. mas alguns conhecimentos de estética, história e fundamentos da criação artística são essenciais, pois “ corpo são mente sã” não se consegue principalmente nas aulas dessa coisa que grassa como uma peste chamada jazz – que tanto atrai o público – que nada mais é que uma forma mercantilista e alienada de perder energia, tempo e dinheiro. no nordeste o movimento em termos de importância concreta, é nenhum em trabalhos desenvolvidos por academias, muito mais preocupadas com cursos fornecidos ao sabor de modismos , neuroses a gorduras e distração para o “stress” vigente. as manifestações em geral visam o comércio. e os trabalhos mais sérios auto-esterilizam-se pela busca neutorizada de uma técnica que nada tem a ver com o bio-ritmo-brasileiro.
em nossas região o novo mito é clyde morgan. norte americano, há sete anos no brasil , com vinte de dança, que intenta uma forma de dança moderna e balé moderno com uma “dinâmica brasileira”, que nada mais acrescenta além do repetitivo sem formar escola ou técnica nossa. no festival de teatro de campina grande(outro?) clayde compareceu para ensinar dança brasileira. importa-se um americano para ensinar os brasileiros a fazer sua própria dança. é lamentável. também rollf gelewski tem conseguido admiradores e adeptos, buscando uma dança espiritual, com aspectos místicos, renegando aspectos sexuais na dança,o que esteticamente, ideologicamente é bastante significativo— afinal, o sexo é um dos alimentos para sua origem.
o presuposto filosófico para o exercício trás subsídios que não podem ser deixados de lado. tomemos por exemplo a formação de george balanchine e marta graham que exercem igual influência na dança contemporânea, nessa nova tendencia, apresentando contudo entre si, estéticas opostas. balanchine formado no balé clássico é um formalista para quem o movimento tem tem valor próprio. a doutrina básica de graham, é que o movimento expressa emoção anterior. graham também se preocupa com a essência – mas para efeitos dramáticos. quer ela empregue coreografia ou não, a coreografia é abstrata devido ao fato de que ela destila uma emoção básica em torno da qual se baseia sua dança. em balanchine, esta sensibilidade é manifesta na idéia de que “ o material da dança é a própria dança”, a forma é o conteúdo. graham inventou um vocabulário de dança ser termos de bailado. balanchine apossou-se da linguagem de 300 anos de idade do balé acadêmico e aplicou-o ao balé pela ampliação do vocabulário e pela sua utilização como função do tempo e espaço. a origem de graham vem da denishawn, fundada em 1915 por st. denis e ted shawn que além de graham formou doris humprey e charles weidman( os três principais “pioneiros” da dança. humprey fala em” queda e convalescença” e em “ dinâmica do equilíbrio e desequilíbrio” e graham em “contração e llibertação”. no princípio de granham não há lugar pare repouso; o seu suporte filosófico relaciona o movimento do torso ao mecanismo da respiração e da vida.
juntamente contra essa ênfase psicológica se rebelam os praticantes da dança moderna da década de 50, que tem em alwin nikolais(que não vem da tradição graham, pois é um descendente da inflência germânica)seu professor principal. hanya holm, declaração que a dança deveria ser “gesto e emoção”. como mary wigman, a figura de proa da dança expressionista alemã, alvin crê que o homem é inseparável de “ seu meio ambiente”. seu vocabulário do movimento tem conotações com a linguagem do corpo.
na revolta contra a psicologia, merce cunningham foi mais além: procurou eliminar o ego do artista no próprio processo de criação artística. cunningham, ex-bailarino de graham, declarou que a música e dança e o cenário são entidades separadas que coexistem somente numa exibição(os bailarinos nunca ouvem a partitura da música a não ser no dia da exibição, e então ela é modificada para o dia seguinte). a filosofia dele é que a linha entre vida e arte é indistinguível, empregando processos baseados em i-ching, o clássico “livro das mudanças” chinês. a aleatoridade de seu trabalho deve-se a sua ligação com o diretor musical , o consagrado e “ maldito” john cage. diz ele que “ isso não quer dizer que a arte deve retratar literalmente a vida, e sim imitar a maneira pela qual a vida opera. porque o homem não é o centro glorioso de tudo”.
de modo semelhante, os clássicos de ontem podem se tornar o renascimento de hoje e as experiências de hoje os clássicos do amanhã. porém, formalismos, expressionaismos, psicologismos, influencias asiáticas(erick hawkins), africanas(alvin ailey), poligamias de movimento com forma, cor e som, “visões da dança como arte do movimento e não da emoção” encerram significados bem mais intrincados e que merecem atenção por parte daqueles preocupados com a dança brasileira, que nomento discute tanto profissionalismo e crise do bailarino, esquecendo que muito antes de tanta reivindicação – que será paternalisticamente atendida, faz parte do jogo esta benção – seus praticantes tão aplicados no corpo meneiam com cabeças fervilhantes de propostas mas vazias de conteúdo.
a visão de uma arte dissociada do social com negligências intelectuais são “barras” destinadas a engrossar os músculos do corpo e só. é preciso em cada área específica tratar o conhecimento – que é uma técnica – como fator de aproximação para uma arte melhor capacitada a compreender as interrelaões de uma sociedade complexa onde atua, refletindo estas relações, cumprindo o verdeiro papel do artista como formador de cultura e desencadeando o papel social da arte, que evidentemente não pode prescindir de elementos teóricos econômicos-sociais-políticos enquanto apreende e quando propôes – arte é conhecimento.
até quando a “ lenda” de que os bailarinos morrem com microcefalia será verdade?
publicado no jornal da cidade, recife, em setembro de 1978.
*klaus vianna, entre outras coisas foi o primeiro coreógrafo a colocar as bailarinas do balé do teatro muncipal do rio de janeiro a dançar descalças. o artigo foi escrito, em grande parte, sob sua influência em convivência estabelecida no curso citado. não custa nada relembrar que nos anos 70 quase todo mundo fazia um curso do tipo na onda do “liberou geral”
** poder-se ia aplicar o mesmo ao funk e ao calypso, por exemplo, grito histérico? das periferias sufocadas, que mais do que nunca buscam a liberdade na exacerbação dos movimentos sexuais, enquanto eles mesmo dança , porém já contaminadas por valores machistas que bastem.
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